domingo, 15 de janeiro de 2017

Em busca do pensar tradicional na arte



Depois de uma visita a Portugal, descobrindo algumas das raízes do Brasil, fiquei impressionado com o colorismo e formas geométricas dos azulejos portuguesas, de origem tradicional do Oriente Médio, como pode se comprovar numa visita ao Museu Gulbenkian.


Sabendo que a busca do geometrismo nas construções árabes e mozárabes visa a uma percepção metafísica da Divindade, simbolizada na arte geométrica, e procurando beber nas fontes tradicionais que originaram essa perspectiva da arte, produzi uma série que chamei de "Portuguesa" , mas que além de ser portuguesa, tem inspiração oriental.

Este foi um dos primeiros trabalhos que fiz nessa linha


A busca de encontrar as raízes do conhecimento tradicional ao fazer os desenhos é que é o processo que eu busco. Ou seja: buscar pensar tradicionalmente ao fazer os desenhos.

E pensar tradicionalmente significa entender que os traçõs tem uma simbologia, que curvas e retas são colocadas não apenas no sentido estético e do equilíbrio, mas também procurando dizer algo que não esteja imerso no cotidiano.

Talvez as pessoas entendam este pensamento com algo reacionário. Mas eu entendo que, no tocante à estética, o excesso de rebeldia levou ao nihil... vazio.

E quanto a isto, parece que chegamos ao ponto em que mencionava T. S. Eliot:

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada



(trad. Ivan Junqueira)

"Quatro azulejos" (guache e aquarela sobre papel hahnemuhle 425 - 30 cm x 40 cm)
Primeiro estudo que fiz com repetição de padrões.

Aquarela e guache profissionais s / Papel Arches 100% algodão (300 g/m²) - 23 cm x 31 cm.
Este trabalho foi o primeiro no qual consegui um 
resultado estético almejado, dentro da "série portuguesa".



"EXPANSÕES"
Pintura utilizando aquarela de grau profissional (Sennelier, Daler,
Schmincke) e tinta acrílica profissional (Golden e Liquitex), sobre
papel Arches de 180 GSM (90 Lb), 100 % algodão.


Na busca das raízes tradicionais, com base na geometria dos azulejos portugueses e mouriscos, fiz este trabalho: "Expansões".



Busquei  a analogia da origem (simbolismo axial) com a manifestação (periférica). E dentro de nós o maior exemplo deste simbolismos axial, é o coração. O coração (origem, centro), e suas derivações (órgãos, atitudes, etc.).




terça-feira, 3 de janeiro de 2017

TINTAS AQUARELAS: QUAIS COMPRAR?

INTRODUÇÃO

Existe um grande processo desinformativo no Brasil, em grande parte proporcionado pelo desconhecimento dos artistas, e alimentado pelos vendedores de materiais artísticos, no que tange à qualidade das marcas de tintas aquarela.

Como o Brasil não tem uma tradição na utilização de aquarelas artísticas, no caso seu uso estando mais direcionado aos trabalhos de ilustradores, existem as especificações de diversos materiais que são informados como “profissionais”, e que não são nada mais que, na realidade, produtos destinados a amadores.

Tendo pesquisado um pouco em virtude de meu trabalho, e não tendo encontrado informações no mercado de materiais artísticos no Brasil, resolvi escrever este pequeno artigo, que espero que sirva de roteiro aos que querem experimentar pintar aquarelas.


I - COMPOSIÇÃO DA TINTA

Se você quer saber mais sobre a composição da tinta, deve procurar maiores informações técnicas em manuais específicos, vendidos nas livrarias. Este artigo tem por objetivo ser uma introdução ao conhecimento do material.

A aquarela tem como composição:

1) Pigmentos: naturais ou sintéticos, minerais ou orgânicos;
2) Goma arábica: como substância ligante para manter o pigmento em suspensão e fixar o pigmento à plataforma utilizada;
3) Aditivos como glicerina, fel de boi, mel e conservantes (que são o grande segredo de fabricação da tinta) que servem para alterar as características físicas da tinta (viscosidade, tempo de secagem, transparência ou opacidade, etc.)
4) Solvente: água.

goma arábica em seu estado natural



II - APRESENTAÇÃO DA TINTA

Quando as primeiras aquarelas foram fabricadas, era comum que fossem secadas, em tabletes, para serem utilizadas posteriormente com a adição da água através dos pincéis, tal como as aquarelas escolares.

Contudo, com o aprimoramento das técnicas e materiais de fabricação, chegou-se a uma formulação em que poderia ser utilizada em tubos, tal como as tintas a óleo ou acrílicas.

Atualmente, as aquarelas são apresentadas em tubos (4 ml, 5 ml, 7,5 ml, 8 ml, 10 ml, 12 ml, 15 ml, 20 ml, 24 ml, etc.), ou em tabletes, contidos em dois tamanhos de pequenas caixinhas (half pan e whole pan).

A preferência de utilização de uma ou outra é algo extremamente pessoal. Minha preferência é pelos tubos, mas tenho utilizado, também, alguns tabletes.

half-pan

whole-pan

tubos




III - MARCAS

É preciso sempre reafirmar, tendo em vista que o leitor pode nunca ter vislumbrado essa informação, as grandes marcas geralmente fabricam tintas aquarela para diversos níveis de consumidores, de uma forma em geral em três níveis: profissional, estudante e escolar.

Algumas marcas fabricam menos ou mais qualidades de tintas, cabendo destacar que o nível profissional busca primar pela qualidade dos materiais utilizados no quesito de resistência ao tempo e à luz, bem como na quantidade de pigmentos.

Observe-se que a técnica de fabricação de aquarela, apesar de não ser tão evidente, é muito mais apurada que as tintas artísticas normalmente utilizadas pelos pintores: óleo, acrílica e guache. Um erro na composição pode inutilizar a tinta.

Talvez por essa dificuldade não tenhamos a tradição de fabricação de aquarelas e, por este motivo, a mentalidade do brasileiro, de uma forma em geral, atribua um caráter “infantil” ao uso da aquarela.
Porém, pela minha experiência, tem sido uma das técnicas mais difíceis que já encontrei pela frente.

Devido à quase inexistência de marcas nacionais (tirando a Aqualine, aquarela líquida fabricada pela Corfix), nos deteremos mais especificamente nas marcas internacionais.



Aqualine, da Corfix

Nota: Anos após escrever este artigo, apareceu no mercado a marca Quati Watercolors (site aqui), marca nacional que busca fornecer ao artista uma tinta de qualidade profissional. Não tive a possibilidade de experimentá-la, mas, segundo notícias e feedbacks de colegas, fui informado ser uma tinta de boa qualidade, com bons resultados.

 

Quati Watercolors (Brasil)



a) Profissionais (*) (**) – Em negrito, marcas que usei e recomendo

Rembrandt (Talens - Holanda); Artists (Daler-Rowney – Reino Unido); Artists (Winsor & Newton – Reino Unido); Lukas 1862 (Lukas - Alemanha); Horadam (Schmincke – Alemanha); Maimeriblu (Maimeri - Itália); QoR (Golden - EUA); Daniel Smith Extra Fine (Reino Unido); Old Holland (Holanda); Blockx (Bélgica); Sennelier Extrafine (França); Mijello Mission Gold (Coréia); M. Graham (EUA); Da Vinci Artists' (EUA); Holbein (Japão); Finest (Grumbacher); Lascaux Aquacryl Artists' (França); Pebeo Fragonard Extra-Fine Artists' (França); Utrecht Artists' (EUA); Quati Watercolors (Brasil).

Winsor & Newton profissional


(*) Algumas marcas ditas profissionais sofrem diversas restrições dos pintores. São elas: Shin Han – SWC (Coréia); Turner (Japão); White-Nights (St. Petersburg - Rússia). Os feedbacks que obtive a respeito disso foi no site WetCanvas, que reúne as experiências de centenas de milhares de artistas no mundo inteiro. Sobre essas marcas citadas, li diversos feedbacks relacionados, principalmente, à durabilidade de algumas de suas cores, que apesar de serem classificadas como "lightfastness" (resistentes à luz), não estavam se comportando como tal (no caso da White Nights, citam as seguintes cores: Hansa Yellow, Olive Green, Yellow Ochre, Violet PV3). Algumas cores classificadas como "lightfastness" não resistiram ao teste do telhado, onde um artista pinta uma folha de papel com amostras de cores e o coloca exposto durante meses para receber a luz do sol, com o intuito de verificar a resistência destas à luz. De toda forma, ainda que a Shin Han e a Turner sejam praticamente desconhecidas no Brasil, a marca White Nights tem gozado entre nós de uma popularidade grande devido ao preço de suas tintas e facilidade para aquisição, e conta com defensores entusiastas e apaixonados (mais detalhes sobre a tinta, recomendo a página da Handprint). Já fui ofendido, inclusive, por fazer este comentário aqui. Mas, apenas relato o que estudei e feedbacks de diversos pintores: não estou recebendo nenhuma remuneração por estes comentários.

(**) Algumas marcas das quais nunca ouvi comentários, apesar de serem fabricantes reconhecidamente idôneos: Finest (Grumbacher); Lascaux Aquacryl Artists'. Eu utilizei tintas Finest Grumbacher e gostei muito da experiência. Contudo, não sei informar quanto à resistência à luz devido à falta de comentários sobre ela.

b) Amadores de Primeira (Recomendadas por diversos pintores)

Cotman (W&N); Van Gogh (Talens); Venezia (Maimeri)

Van Gogh (Talens)


c) Amadoras

Aquafine (Daler-Rowney – Reino Unido); Pebeo Fine (França); Titan (Espanha); Mijello Mission Silver (Coréia); Academy (Grumbacher – EUA); Reeves (Reino-Unido); Royal-Langnickel (Reino Unido); Sakura Koi (Japão); Taker (Espanha); Pelikan (Alemanha);

Sakura Koi (Japão)


d) Escolares

Simply (Daler-Rowney); Art-Creation (Talens); Angora (Alemanha); Crayola (EUA); Faber-Castell Conector (Alemanha); Koh-I-Noor; Niji; Prang; Yarka; etc.

Aquarela Koh-I-Noor



IV - CONCLUSÃO

Esta listagem, e nem os comentários, pretendem ser conclusivos. Existem diversas tintas aquarela orientais de qualidade, porém que usam técnicas de aplicação diferentes, que ainda desconheço: Holbein Irodori, por exemplo. Algumas ditas profissionais são consideradas mais opacas, como a Kuretake Gansai Tambi (Japão).

Temos também as aquarelas líquidas, das quais ainda não adquiri muito conhecimento, apesar de há muitos anos atrás ter usado a Ecoline (Talens). Há, também a Dr. PH Martins, que é considerada de ótima qualidade e muito resistente à luz.

Dr. Ph Martins, aquarela líquida


Apesar de não conclusivas, estas informações são o resultado de um ano de experiência na busca de entender a técnica de aquarela, bem como de conhecer seus materiais. E espero que sirva como mapa introdutório para orientar aqueles que querem iniciar no conhecimento dessa técnica, e para que os iniciantes não se esmoreçam por, ao utilizarem material de má qualidade, obterem um mal resultado nos seus trabalhos.