sábado, 4 de março de 2017

AQUARELA: FAZER UM RETRATO (PARA INICIANTES)

Nível : Intermediário               
Tempo de realização : 2 horas
Autor: Mathias Braun.            
Tradução: George Avis           



Algumas dicas simples podem ajudá-lo a pintar um rosto com aquarela: trabalhar em um grande formato, jogando com áreas brancas, por exemplo. Seu desafio: aprender a respeitar as proporções, já que você tende (pelo menos inicialmente) a expandir certos elementos (olhos e boca) e reduzir outros (orelhas, pescoço, testa, cabelo). Finalmente, para capturar o melhor possível a personalidade do modelo, pretende representar os ombros, e você vai estudar a maneira em que a cabeça está inserida no contexto, e você pode trazer uma atitude, ou uma expressão familiar.
Material
- Papel: p/ Aquarela 300 g/m2 - grão fino (GF). Recomenda-se o Montval.
- Cores: Aquarela em pastilhas amarelo primário, vermelho, violeta, azul ultramar, verde esmeralda, terra de Siena queimada.
- Lápis e pincéis: 1 lápis medio (HB) bem apontado ou 1 lapiseira fina (0,5 mm), 1 pincel de aguada, 1 pincel médio redondo de ponta (pelo de esquilo ou um bom orelha de boi), 1 pincel fino redondo de ponta (preferência marta ou um bom sintético) para os acabamentos.

Etapa 1

Execute um esboço rápido do tema.
Com o lápis (tem que ter ponta bem afiada para que o traços seja o mais preciso e o mais leve possível), fazer um esboço dos contornos do rosto e depois do pescoço e ombros. Insira elementos como olhos, nariz e boca. Conclua com as orelhas e os cabelos. Sinta-se livre para apagar se você cometer algum erro.
Cuidado: evitar detalhes muito precisos (cílios, sobrancelhas, pupila, íris, etc.), porque você vai pintar com a aquarela (transparente).



Etapa 2

Aplica uma aguada (tinta bastante diluída) para dar ao rosto tonalidade e volume.
Prepara uma boa quantidade de aguada (será utilizada mais tarde): amarelo primário e um pouco mais de vermelho (obterá um laranja claro). Dilui bastante antes de aplicar a cor.
Coloca a cor nas zonas onde o rosto está nas sombra. Deixa partes em branco nas zonas iluminadas.
Seus gestos modelam o rosto e contribuem para a expressão: evita preenchê-lo. Aplica melhor a cor em camadas distintas, sem se preocupar em te sair dos contornos em lápis.




Etapa 3

Marcar as sombras e as zonas mais escuras.
Reutiliza a mistura anterior, aplica-a com o pincel de aguada, mas diluindo-a menos: as cores têm que ser mais densas.
Coloca as sombras do rosto, a sombra do nariz, e trata o cabelo. Deixa zonas sem pintar nos lugares onde se reflete a luz.
Truque: suaviza o contorno das sombras para lhes dar mais realismo. Sem aplicar mais a cor, passa o pincel limpo, mas ainda úmido, sobre os limites das zonas mencionadas (dando leveza na passagem da sombra para a luz).



Etapa 4

Afinar os detalhes do rosto.
Prepara uma aguada misturando vermelho com um pouco de violeta. Trabalha com o pincel médio redondo de ponta procurando, uma vez mais, não delimitar muito o esboço:
1) A boca: aplica pinceladas mais ou menos diluídas em função da reflexão da luz. Para dar uma impressão de brilho, deixa uma zona sem pintar no centro do lábio inferior.
2) Os olhos: utiliza a mesma aguada, diluindo-a um pouco mais. Coloca a cor, tentando sempre não fechar as formas, já que deixar pequenas zonas sem pintar contribui para a criação de volume. Estas últimas correspondem às zonas em relevo onde a luz se reflete mais.




Etapa 5

Reforçar o volume do cabelo.
Preparar uma aguada grossa de amarelo puro. Aplica-o no cabelo com um gesto firme, utilizando o pincel de aguada: não se preocupe em sair dos contornos, trata-se de uma massa geral que precisará mais tarde. Aplica rapidamente as sobrancelhas da mesma maneira. Procura deixar zonas da cor anterior visíveis.


  
Etapa 6

Tratar os detalhes da cabeleira.
Prepara uma aguada a base de vermelho, violeta e um toque de azul ultramar (reforçará o conjunto). A cor obtida tem que ser densa. Trabalha com pequenas pinceladas utilizando o pincel de aguada.
Utiliza o pincel redondo de ponta fina para as zonas de precisão: mechas de cabelo, sobrancelhas.


  
Etapa 7

Detalhar o pulôver e os olhos.
Prepara uma mescla de verde esmeralda e azul ultramar (uma tonalidade complementar à utilizada para tratar a pele: daí o contraste bastante forte).
1) O pulôver : aplica rapidamente a cor diluída.
2) Os olhos: aplica a mesma cor com o pincel redondo médio. Cuidado!: deixa uma zona sem pintar no olho para expressar o reflexo da luz. Este reflexo dará um pouco de viço e de vida ao retrato, por isso terá que pintá-lo com cuidado.
3) O pulôver: coloca rapidamente as sombras para contribuir com volume. Aplica a mesma cor com o pincel de aguada, diluindo-o menos.


Etapa 8

Aperfeiçoar o olhar cuidadosamente.

Trabalhar com o pincel redondo de ponta fina.
1) A íris: com o que fica da mescla utilizada para criar as sombras do pulôver, traça os contornos da íris e sua parte superior (já que as pestanas projetam sua sombra nela). Procura deixar zonas sem pintar.
2) As pestanas e a pupila : prepara uma mescla muito pouco diluída composta de violeta, um pingo de terra de Siena e um pingo de azul. Este tom violáceo muito intenso evitará que recarregue a tonalidade do conjunto (contrariamente ao negro).
Retocar ligeiramente a pupila, deixando a zona sem pintar. Para as pestanas: começa pela pálpebra e as desenhe com um gesto rápido. Obterá um risco que se vai afinando.



Etapa 9

Reforçar as sombras e as partes escuras.
Para isso, mais vale utilizar uma cor franca e pouco diluída do que um tom escuro: prepara uma mescla de vermelho puro e violeta (um pingo).
Realça, com o pincel redondo de ponta fina, as sombras que não estão bastante marcadas aplicando um traço leve de pintura: comissura dos lábios, base do queixo, ocos do nariz, orelha, pés de galinha, etc.



Dica

Ao final do trabalho, sempre poderá voltar a trabalhar as sombras para equilibrar o conjunto: a base do queixo, a sombra da mecha de cabelo sobre a testa, etc. Para isso, basta utilizar a mesma aguada que na etapa 9 com o pincel redondo de ponta, diluindo-a generosamente.





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MUSEU DO PRADO 2: ROGIER VAN DER WEYDEN

Quando estive no Museu do Prado, acompanhado de minha esposa, acabei ficando durante cinco horas e meia olhando a bela coleção.
Muitas obras chamam a atenção, principalmente por se tratar de uma coleção feita pelos reis mais poderosos da Europa em seu tempo, além de coletar grande parte da pintura espanhola, que tem dentre seus mais expressivos pintores clássicos homens da envergadura de Velásquez e Goya.
Contudo, em uma sala do museu, eu tive uma experiência inesquecível. A maior experiência que tive com uma obra de arte em minha vida: A Deposição da Cruz (c. 1435).

A Deposição da Cruz (c. 1435) - Museu do prado

A pintura é extremamente famosa (mais detalhes técnicos, veja aqui). E diversos estudos foram feitos quanto à composição dessa obra, em que Maria é colocada na mesma posição de Jesus, como se ela tivesse partilhando com a mesma intensidade do sofrimento deste.
Apesar de tudo que já havia lido desde criança, apesar da maravilhosa técnica de Weyden, apesar de, na adolescência, ter lido que este pintor teria sido um dos inventores da tinta a óleo, nada disso poderia construir uma expectativa para a experiência que tive, que é intraduzível, porém que buscarei descrever em breves palavras.
Quando entrei na sala onde a obra estava exposta, senti como se estivesse entrando em um recinto sagrado. A preponderância da pintura naquele ambiente fazia com que uma força se expandisse, e criasse uma propensão à meditação.
Diria que havia uma radiação que se espalhava do quadro a todo o ambiente, que fazia com que eu sentisse corporalmente a presença de algo divino; isto talvez seja o mais aproximado que posso dizer do que senti.
Devo dizer que não tenho atração por relíquias ou coisas do gênero. Tampouco tenho a pretensão de venerar objetos. Contudo, naquele momento entendi, para minha vida como artista, que o objetivo precípuo da arte é elevar o ser humano a um estágio que existe dentro dele mesmo, mas que se encontra adormecido devido a diversos fatores.

Rogier Van Der Weyden 
(Tournai, 1400 — Bruxelas, 18 de junho de 1464)

A experiência foi tão marcante que nos minutos em que ali estive, acometeu-me um silêncio íntimo. E compreendi que uma obra como aquela não poderia ter sido feita senão com real inspiração superior. E não encontrei isso nas milhares de obras que vi naquele museu, algumas muito belas.
Detalhe: minha esposa que estava com dor de cabeça desde manhã cedo, ao ver o quadro, melhorou.
Deixo aqui um questionamento: a arte é para expressar o que somos, ou para conduzir-nos ao melhor de nós mesmos? O que ainda resta da arte na pós-destruição de todos seus cânones?

Vai ao museu do Prado? Não deixe de ver essa pintura! Eu gostaria de ler sobre a opinião de alguém que a tenha visto pessoalmente.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Em busca do pensar tradicional na arte



Depois de uma visita a Portugal, descobrindo algumas das raízes do Brasil, fiquei impressionado com o colorismo e formas geométricas dos azulejos portuguesas, de origem tradicional do Oriente Médio, como pode se comprovar numa visita ao Museu Gulbenkian.


Sabendo que a busca do geometrismo nas construções árabes e mozárabes visa a uma percepção metafísica da Divindade, simbolizada na arte geométrica, e procurando beber nas fontes tradicionais que originaram essa perspectiva da arte, produzi uma série que chamei de "Portuguesa" , mas que além de ser portuguesa, tem inspiração oriental.

Este foi um dos primeiros trabalhos que fiz nessa linha


A busca de encontrar as raízes do conhecimento tradicional ao fazer os desenhos é que é o processo que eu busco. Ou seja: buscar pensar tradicionalmente ao fazer os desenhos.

E pensar tradicionalmente significa entender que os traçõs tem uma simbologia, que curvas e retas são colocadas não apenas no sentido estético e do equilíbrio, mas também procurando dizer algo que não esteja imerso no cotidiano.

Talvez as pessoas entendam este pensamento com algo reacionário. Mas eu entendo que, no tocante à estética, o excesso de rebeldia levou ao nihil... vazio.

E quanto a isto, parece que chegamos ao ponto em que mencionava T. S. Eliot:

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada



(trad. Ivan Junqueira)

"Quatro azulejos" (guache e aquarela sobre papel hahnemuhle 425 - 30 cm x 40 cm)
Primeiro estudo que fiz com repetição de padrões.

Aquarela e guache profissionais s / Papel Arches 100% algodão (300 g/m²) - 23 cm x 31 cm.
Este trabalho foi o primeiro no qual consegui um 
resultado estético almejado, dentro da "série portuguesa".



"EXPANSÕES"
Pintura utilizando aquarela de grau profissional (Sennelier, Daler,
Schmincke) e tinta acrílica profissional (Golden e Liquitex), sobre
papel Arches de 180 GSM (90 Lb), 100 % algodão.


Na busca das raízes tradicionais, com base na geometria dos azulejos portugueses e mouriscos, fiz este trabalho: "Expansões".



Busquei  a analogia da origem (simbolismo axial) com a manifestação (periférica). E dentro de nós o maior exemplo deste simbolismos axial, é o coração. O coração (origem, centro), e suas derivações (órgãos, atitudes, etc.).




terça-feira, 3 de janeiro de 2017

TINTAS AQUARELAS: QUAIS COMPRAR?

INTRODUÇÃO

Existe um grande processo desinformativo no Brasil, em grande parte proporcionado pelo desconhecimento dos artistas, e alimentado pelos vendedores de materiais artísticos, no que tange à qualidade das marcas de tintas aquarela.

Como o Brasil não tem uma tradição na utilização de aquarelas artísticas, no caso seu uso estando mais direcionado aos trabalhos de ilustradores, existem as especificações de diversos materiais que são informados como “profissionais”, e que não são nada mais que, na realidade, produtos destinados a amadores.

Tendo pesquisado um pouco em virtude de meu trabalho, e não tendo encontrado informações no mercado de materiais artísticos no Brasil, resolvi escrever este pequeno artigo, que espero que sirva de roteiro aos que querem experimentar pintar aquarelas.


I - COMPOSIÇÃO DA TINTA

Se você quer saber mais sobre a composição da tinta, deve procurar maiores informações técnicas em manuais específicos, vendidos nas livrarias. Este artigo tem por objetivo ser uma introdução ao conhecimento do material.

A aquarela tem como composição:

1) Pigmentos: naturais ou sintéticos, minerais ou orgânicos;
2) Goma arábica: como substância ligante para manter o pigmento em suspensão e fixar o pigmento à plataforma utilizada;
3) Aditivos como glicerina, fel de boi, mel e conservantes (que são o grande segredo de fabricação da tinta) que servem para alterar as características físicas da tinta (viscosidade, tempo de secagem, transparência ou opacidade, etc.)
4) Solvente: água.

goma arábica em seu estado natural



II - APRESENTAÇÃO DA TINTA

Quando as primeiras aquarelas foram fabricadas, era comum que fossem secadas, em tabletes, para serem utilizadas posteriormente com a adição da água através dos pincéis, tal como as aquarelas escolares.

Contudo, com o aprimoramento das técnicas e materiais de fabricação, chegou-se a uma formulação em que poderia ser utilizada em tubos, tal como as tintas a óleo ou acrílicas.

Atualmente, as aquarelas são apresentadas em tubos (4 ml, 5 ml, 7,5 ml, 8 ml, 10 ml, 12 ml, 15 ml, 20 ml, 24 ml, etc.), ou em tabletes, contidos em dois tamanhos de pequenas caixinhas (half pan e whole pan).

A preferência de utilização de uma ou outra é algo extremamente pessoal. Minha preferência é pelos tubos, mas tenho utilizado, também, alguns tabletes.

half-pan

whole-pan

tubos




III - MARCAS

É preciso sempre reafirmar, tendo em vista que o leitor pode nunca ter vislumbrado essa informação, as grandes marcas geralmente fabricam tintas aquarela para diversos níveis de consumidores, de uma forma em geral em três níveis: profissional, estudante e escolar.

Algumas marcas fabricam menos ou mais qualidades de tintas, cabendo destacar que o nível profissional busca primar pela qualidade dos materiais utilizados no quesito de resistência ao tempo e à luz, bem como na quantidade de pigmentos.

Observe-se que a técnica de fabricação de aquarela, apesar de não ser tão evidente, é muito mais apurada que as tintas artísticas normalmente utilizadas pelos pintores: óleo, acrílica e guache. Um erro na composição pode inutilizar a tinta.

Talvez por essa dificuldade não tenhamos a tradição de fabricação de aquarelas e, por este motivo, a mentalidade do brasileiro, de uma forma em geral, atribua um caráter “infantil” ao uso da aquarela.
Porém, pela minha experiência, tem sido uma das técnicas mais difíceis que já encontrei pela frente.

Devido à quase inexistência de marcas nacionais (tirando a Aqualine, aquarela líquida fabricada pela Corfix), nos deteremos mais especificamente nas marcas internacionais.



Aqualine, da Corfix

Nota: Anos após escrever este artigo, apareceu no mercado a marca Quati Watercolors (site aqui), marca nacional que busca fornecer ao artista uma tinta de qualidade profissional. Não tive a possibilidade de experimentá-la, mas, segundo notícias e feedbacks de colegas, fui informado ser uma tinta de boa qualidade, com bons resultados.

 

Quati Watercolors (Brasil)



a) Profissionais (*) (**) – Em negrito, marcas que usei e recomendo

Rembrandt (Talens - Holanda); Artists (Daler-Rowney – Reino Unido); Artists (Winsor & Newton – Reino Unido); Lukas 1862 (Lukas - Alemanha); Horadam (Schmincke – Alemanha); Maimeriblu (Maimeri - Itália); QoR (Golden - EUA); Daniel Smith Extra Fine (Reino Unido); Old Holland (Holanda); Blockx (Bélgica); Sennelier Extrafine (França); Mijello Mission Gold (Coréia); M. Graham (EUA); Da Vinci Artists' (EUA); Holbein (Japão); Finest (Grumbacher); Lascaux Aquacryl Artists' (França); Pebeo Fragonard Extra-Fine Artists' (França); Utrecht Artists' (EUA); Quati Watercolors (Brasil).

Winsor & Newton profissional


(*) Algumas marcas ditas profissionais sofrem diversas restrições dos pintores. São elas: Shin Han – SWC (Coréia); Turner (Japão); White-Nights (St. Petersburg - Rússia). Os feedbacks que obtive a respeito disso foi no site WetCanvas, que reúne as experiências de centenas de milhares de artistas no mundo inteiro. Sobre essas marcas citadas, li diversos feedbacks relacionados, principalmente, à durabilidade de algumas de suas cores, que apesar de serem classificadas como "lightfastness" (resistentes à luz), não estavam se comportando como tal (no caso da White Nights, citam as seguintes cores: Hansa Yellow, Olive Green, Yellow Ochre, Violet PV3). Algumas cores classificadas como "lightfastness" não resistiram ao teste do telhado, onde um artista pinta uma folha de papel com amostras de cores e o coloca exposto durante meses para receber a luz do sol, com o intuito de verificar a resistência destas à luz. De toda forma, ainda que a Shin Han e a Turner sejam praticamente desconhecidas no Brasil, a marca White Nights tem gozado entre nós de uma popularidade grande devido ao preço de suas tintas e facilidade para aquisição, e conta com defensores entusiastas e apaixonados (mais detalhes sobre a tinta, recomendo a página da Handprint). Já fui ofendido, inclusive, por fazer este comentário aqui. Mas, apenas relato o que estudei e feedbacks de diversos pintores: não estou recebendo nenhuma remuneração por estes comentários.

(**) Algumas marcas das quais nunca ouvi comentários, apesar de serem fabricantes reconhecidamente idôneos: Finest (Grumbacher); Lascaux Aquacryl Artists'. Eu utilizei tintas Finest Grumbacher e gostei muito da experiência. Contudo, não sei informar quanto à resistência à luz devido à falta de comentários sobre ela.

b) Amadores de Primeira (Recomendadas por diversos pintores)

Cotman (W&N); Van Gogh (Talens); Venezia (Maimeri)

Van Gogh (Talens)


c) Amadoras

Aquafine (Daler-Rowney – Reino Unido); Pebeo Fine (França); Titan (Espanha); Mijello Mission Silver (Coréia); Academy (Grumbacher – EUA); Reeves (Reino-Unido); Royal-Langnickel (Reino Unido); Sakura Koi (Japão); Taker (Espanha); Pelikan (Alemanha);

Sakura Koi (Japão)


d) Escolares

Simply (Daler-Rowney); Art-Creation (Talens); Angora (Alemanha); Crayola (EUA); Faber-Castell Conector (Alemanha); Koh-I-Noor; Niji; Prang; Yarka; etc.

Aquarela Koh-I-Noor



IV - CONCLUSÃO

Esta listagem, e nem os comentários, pretendem ser conclusivos. Existem diversas tintas aquarela orientais de qualidade, porém que usam técnicas de aplicação diferentes, que ainda desconheço: Holbein Irodori, por exemplo. Algumas ditas profissionais são consideradas mais opacas, como a Kuretake Gansai Tambi (Japão).

Temos também as aquarelas líquidas, das quais ainda não adquiri muito conhecimento, apesar de há muitos anos atrás ter usado a Ecoline (Talens). Há, também a Dr. PH Martins, que é considerada de ótima qualidade e muito resistente à luz.

Dr. Ph Martins, aquarela líquida


Apesar de não conclusivas, estas informações são o resultado de um ano de experiência na busca de entender a técnica de aquarela, bem como de conhecer seus materiais. E espero que sirva como mapa introdutório para orientar aqueles que querem iniciar no conhecimento dessa técnica, e para que os iniciantes não se esmoreçam por, ao utilizarem material de má qualidade, obterem um mal resultado nos seus trabalhos.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

MUSEU DO PRADO 1: DIEGO VELÁSQUEZ

Prezados, o que falar do museu do Prado? Um dos museus mais famosos do mundo, resultado, principalmente, da riqueza que a corte espanhola gozava nos séculos XVI e XVII, principalmente, bem como da explosão cultural naquela país chamada de “Siglo de Oro”, com expoentes culturais em diversas frentes: Cervantes, Velásquez, Góngora, Calderón de La Barca, Lope de Veja, etc etc etc.

Quando adolescente olhava o livro da Editora Verbo, da Coleção “Grandes Museus do Mundo”, o Prado povoava minha imaginação, sem ter sequer a perspectiva de chegar um dia a conhecê-lo.

Entrada do Museu do Prado
 (propaganda da Exposição de Bosch - "El Bosco")


Museu do Prado 
(propaganda da Exposição de Bosch - "El Bosco")


Para um brasileiro, acostumado às loas expressadas a um MASP, chegar ao Museu do Prado é surreal. Estar diante de “trocentos” Velasquez, ou de “trocentos” Goyas, ou de outros tantos Rafaéis parece a ilusão da miragem de um sonho de todo aquele que ama as artes Plásticas. Mas para mim, a viagem a este museu, e por este museu, guardou surpresas que nunca sequer imaginei.

Como são diversas experiências que tive ao longo de cinco horas e meia de visitação, vou separar minhas considerações em alguns textos, começando este por Velásquez.

Em primeiro lugar, conhecer pessoalmente, dois dos quadros mais famosos da história da Arte: A Rendição de Breda (ou “As Lanças”) e aquele que é conhecido como “As meninas”. Somente sobre esses dois quadros já foram escritos artigos diversos, sobre a maestria na composição (o que é evidente à primeira vista), e dos diversos detalhes existentes, que colaboram o encontro entre espectador  e o artista, ainda que alguns séculos os separem.

A Rendição de Breda (ou "As Lanças")

As Meninas


Dignas de destaque são obras que não estão tanto sob os holofotes da mídia (logo abaixo), mas que foram objeto de releitura feita no século XX e, por isso mesmo, valorizadas: El Bufón Calabacillas (1636-37), Francisco Lezcano, el niño de Vallecas (163-45) e o  Retrato del enano Don Sebastián de Morra (1645).


El Bufón Calabacillas (1636-37), 

Francisco Lezcano, o menino de Vallecas (1643-45) 
Este quadro foi base de um trabalho do famoso pintor inglês Roger Bacon. 

Retrato do anão Sebastião de Morra (1645).

Para os releitores, a visão dessas espécies de quadros parece um reconhecimento do humano, ao dar dignidade a figuras preteridas no trato cotidiano da corte. Outros, porém, entendem que se tratava de uma atitude burlesca de Velasquez, estabelecendo uma crítica à corte espanhola ao utilizar figuras marginais em destaque e dar títulos nobres a elas.

Seja qual for o motivo, percebemos a maestria em perscrutar a psicologia do retratado.

Tenho que confessar que as miríades de quadros de personagens da Corte espanhola, principalmente de Fernando IV, ainda que feitos por um mestre como Velásquez, hoje em dia me parecem enfadonhas. Contudo, ainda assim, podemos perceber uma espécie de esmero técnico na confecção dos quadros, onde, talvez, a carência de assunto tivesse que dar relevo à eficácia da forma, ou onde houvesse o perigo quanto a possibilidade de "desnudar" o retratado, como vemos, por exemplo, no retrato de "La Reina Isabel de Bourbon a Caballo":

La Reina Isabel de Bourbon a Caballo (1635-36)

Vejam o detalhe do vestido da Dona Rainha, e percebam o quanto de suor Velasquez deve ter gasto ao pintar o tecido:

Detalhe do vestido do quadro anterior

Outro quadro que também povoava minha memória de criança, que havia na coleção "Mitologia", da editora Abril, era o Triunfo de Baco (ou "os bebuns"... ou "os ébrios", numa linguagem mais castiça). A visão de alguns "populares" espanhóis, contemporâneos de Velasquez, juntamente com o deus Baco, da antiguidade romana, era um anacronismo que minha cabeça de criança não conseguia capturar. Mas juntar coisas díspares temporalmente me parece uma forma de estabelecer o caráter de "eternidade" ao "aqui e agora", ao presente.

O Triunfo de Baco (1628-29)

Esta experiência de estar próximo de obras tão icônicas para um artista, quase um momento de reverência, se quebrou ao ver o frescor de uma "Cabeça de Veado", onde o pintor parecia demonstrar a leveza da pintura e, o que julgo ser mais importante, o amor que tinha ao trabalho de pintar: pinceladas rápidas, fluídas, sem o policiamento formal de outras pinturas. A solução de pintura dos pelos me parece maravilhosa.

Cabeça de Veado (1628-29)

Em suma: ficar na presença de dezenas de Velasquez é uma experiência intraduzível para um artista,  para quem ama este labor ou para um amante da arte.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

MUSEU CALUSTIAN GULBENKIAN

Estive em setembro de 2016 em Portugal e Espanha e aproveitei para aumentar meu conhecimento pictórico no  “Velho Continente”. Neste caso visitei dois museus bem expressivos: Calouste Gulbekian em Lisboa e o Museu do Prado em Madri. Neste primeiro momento, vou falar do Calouste Gulbekian.

O Museu Calouste Gulbekian fica em Lisboa, na Av. de Berna, 45A. Parei na estação de metrô São Sebastião e caminhei até lá. Vamos pular o belo ambiente no qual o museu está instalado, bem como o as belas instalações do próprio museu, como vocês podem observar nas fotos abaixo:

Entrada principal do museu.


Jardim da fundação

Ao adentrarmos o museu, temos contato com diversas coleções: Arte Egípcia, Greco-romana, da Mesopotâmia, do Oriente Islâmico, Arte Armênia, Chinesa, Pintura, Escultura, etc.

No meu entendimento as coleções que mais me atraíram foram a de pintura e arte do Oriente Islâmico, principalmente esta.

Contudo, a primeira peça que chama a atenção é um vaso grego (vide foto abaixo), em forma de cálice/cratera, de cerca de 440 a.C. com diversas figuras mitológicas. A leveza das figuras e a decoração bicromática do vaso nos fazem refletir sobre como é estranhamente surpreendente que vasos de utilização cotidiana há cerca de 2.500 anos sejam hoje peças de extraordinária beleza, dignos de exposição em um museu. Pela confecção, percebe-se que o autor colocou sua alma na peça e ela ainda se encontra presente, atravessando as eras e tempos.

Vaso de figuras vermelhas (Grécia - Ática - c. 440 a.C.)


Para numismatas, a coleção de moedas gregas antigas é muito interessante também, com algumas tendo um padrão de qualidade que não sabia existir naqueles tempos. Também causa reflexão ver aquela miríade de cabeças de pessoas importantes que nunca ouvimos falar.  

moedas gregas (575 - 75 a.C.)

Outra peça interessante é um baixo relevo assírio representando um gênio alado, da época de Assurnasirpal II (884 a 859 a.C.), com algumas inscrições grafadas por cima do relevo, fazendo existir um contraste interessante na peça. Se você clicar na foto abaixo, vai perceber o contraste na textura da pedra e talvez consiga ter uma percepção pálida do que significava a beleza dessa peça quando ela foi criada.

Gênio alado - relevo assírio (séc IX a.C.)


Agora, o que realmente é extraordinário no museu é a coleção de arte islâmica, onde pequenos azulejos tomam uma forma épica de construção pictórica, baseada fortemente na tradição daqueles povos, e peças de artesanato como pratos e tapetes carregam consigo a glória de uma civilização que teve seu auge por volta dos séculos IX e XII. 

Temos, por exemplo, um azulejo do século XIV com um pássaro / dragão, que parece uma fênix (?). Se observar a foto (abaixo), que tirei com bastante detalhe, vai ver o trabalho cuidadoso com que o artesão realizou sobre o azulejo, que deveria ser um dos diversos que fez.

Azulejo (Pérsia - Caxã - séc. XIV)
faiança moldada, decoração de "reflexo metálico"


Até uma peça usual tal qual um batedor de tapetes assume uma presença artística que não estamos mais habituados a ter em nossos cotidianos, que ainda são fabricados no Oriente Próximo.

Batedor de tapetes "contemporâneo"

É claro que, ao ver os azulejos orientais a gente pode perceber um pouco da herança que os orientais deixaram para a azulejaria portuguesa, como os exemplos abaixo:

Painel de azulejos (Turquia - 2ª metade do séc. XVI)

Painel de azulejos (Turquia - 2ª metade do séc. XVI)

Painel de azulejos (Turquia - 2ª metade do séc. XVI)

É claro que não há como não se maravilhar diante da coleção chinesa, ou de outras coleções expostas no museu, mas deixaremos de mencioná-las neste texto. 

Quando chegamos à ala de pintura, vemos diversos trabalhos que nos deixam extasiados, apesar de não encontrar no museu nenhuma obra-prima midiática, como a “Gioconda”, por exemplo. Mas alguns trabalhos enchem nossos olhos, como é o caso de obras de Turner (Quillebeuf, Foz do Sena – 1833 – óleo s/ tela), do pré-Rafaelita Edward Burne-Jones (O Espelho de Vênus – 1875 – óleo s/ tela), ou as antigas paisagens de Ruisdael que tanto me agradam desde quando eu era adolescente (Vista da Costa da Noruega ou Mar Encrespado Junto à Costa – c. 1660 – óleo s/ tela).

Turner (Quillebeuf, Foz do Sena – 1833 – óleo s/ tela)


Edward Burne-Jones (O Espelho de Vênus – 1875 – óleo s/ tela)


Ruisdael (Vista da Costa da Noruega ou 
Mar Encrespado Junto à Costa – c. 1660 – óleo s/ tela)


Há, também, diversos outros autores como : Rembrandt, Rubens, Renoir, Degas, Francesco Guardi, Frans Hals, Millet, Manet, Monet, Van Dyck, Fantin-Latour, etc.

De toda forma, é meu entendimento que fazer uma visita ao museu Gulbenkian é algo imprescindível para o artista que visita Lisboa. Separe, pelo menos, duas horas e meia para uma visita ao acervo permanente.